Salmos Capítulo : 2
1 Por que se
amotinam as nações, e os povos tramam em vão?
2 Os reis da terra
se levantam, e os príncipes juntos conspiram contra o Senhor e contra o seu
ungido, dizendo:
3 Rompamos as suas
ataduras, e sacudamos de nós as suas cordas.
4 Aquele que está
sentado nos céus se rirá; o Senhor zombará deles.
5 Então lhes
falará na sua ira, e no seu furor os confundirá, dizendo:
6 Eu tenho
estabelecido o meu rei sobre Sião, meu santo monte.
7 Falarei do
decreto do Senhor; ele me disse: Tu és meu Filho, hoje te gerei.
8 Pede-me, e eu te
darei as nações por herança, e as extremidades da terra por possessão.
9 Tu os quebrarás
com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro.
10 Agora, pois, ó
reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra.
11 Servi ao Senhor
com temor, e regozijai-vos com tremor.
12 Beijai o Filho,
para que não se ire, e pereçais no caminho; porque em breve se inflamará a sua
ira. Bem-aventurados todos aqueles que nele confiam.
Aqui temos um roteiro:
Cena 1- Deus constitui o seu
Rei sobre o seu santo monte Sião (v 6)
Cena 2- Os reis da terra e os
príncipes se rebelam (vv 2,3)
Cena 3- Deus se ri deles e
sustenta o direito do seu Rei (vv 4-8)
Cena 4- O Rei ungido dá tempo
para que os reis e os magistrados da terra se arrependam e se submetam (vv
7-120)
Deus, o Criador, reina de
direito e de fato sobre tudo e sobre todos.
O fato de sustentar seres em
estado de rebelião, uma vez que tudo existe nele, não fala da abrangência do
seu reino, mas da sua forma de reinar.
O sustentar seres nesse estado
não significa que Deus tenha aberto mão da honra a que faz jus, mas,
apenas que administra essa retomada.
O salmo 2 anuncia o fim da
tolerância para com a rebelião.
Um Rei é posto. Ele governará
em nome de Deus. E todos devem submeter-se a ele.
Os reis e magistrados não o
reconhecem.
Ele tem o direito de subjugar
a todos por força férrea. Entretanto, prefere estender a todos a possibilidade
da submissão voluntária.
A Igreja em Jerusalém viu, nas
ameaças das autoridades à liberdade de pregação (At 4.23-30), o cumprimento
desse salmo, abrindo espaço para que se considere cumprimento dessa palavra
toda a tentativa de calar a Igreja.
Tal interpretação trouxe o que
seria considerado escatologia para dentro da história em curso.
De modo que o tendente a ser
classificado como escatológico, tornou-se, de fato, o palco da história.
A Igreja, nessa perspectiva, é
tornada agência, na história, de manifestação do reinado desse novo rei, e de
advertência sobre o tempo de arrependimento e de consequente submissão, que é
agora.
A submissão pessoal é a
conversão.
A submissão estrutural (da
sociedade organizada) é a adoção do gabarito do Cristo para equidade na
humanidade. (Mt 25.31-40)
Viver a vida abundante, ser
feliz, ganha como contorno:
Feliz o que evita a gargalhada
de desprezo do Poderoso.
Feliz quem é poupado do furor
de quem o pode confundir.
Feliz o que observa a ordem no
universo.
Feliz aquele que reconhece quem,
nessa ordem, tem o direito.
Feliz quem percebe a lógica
que estabelece o governo.
Feliz é quem se alia à
exigibilidade do direito.
Feliz é o prudente em seus
atos, diante do direito daquele que governa.
Feliz é o que serve a quem
deve, com respeito.
Feliz quem não confunde a
alegria no relacionamento, com ausência da tensão que todo o relacionamento
exige, para que não se esvazie.
Feliz é quem se refugia
naquele que, realmente, pode proteger.
Considerações:
Toda rebelião contra Deus é
inócua.
A questão é mais que a
inocuidade, é que toda a rebelião contra Deus é contra a forma como é
sustentado o funcionamento do Universo, o que acaba se voltando contra o
rebelde, confundindo-o, tal qual vemos nas mudanças climáticas produzidas pela
rebelião humana a Deus, pelo desrespeito ao ecossistema.
O reconhecimento do direito de
Deus sustenta o reconhecimento do direito de todas, e de cada uma de suas
criaturas.
Essa consciência do direito é
que estabelece o significado de governo. Quando os que se pretendem reis e
magistrados relativizam essa lógica de sustentação da administração do poder,
perdem o direito ao governo.
Isso se dá nas relações
pessoais, também, pois, embora, não sejam relações de poder ou de governo, são
relações que não podem preterir o direito.
Toda a relativização do
direito do outro, e todo desprezo para com o outro é rebelião contra Deus e o
seu Ungido.
O direito é uma tensão que não
pode ser relativizada, porque a ausência de respeito ao outro, que é seu
direito, torna o amor num fardo, quando deveria ser uma realização.


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